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design no pós-apocalipse

Vamos imaginar um cenário apocalíptico? Em 2020, não é difícil fazer listas quilométricas desenhando as incontáveis maneiras que a humanidade pode se destruir. Mas hoje não sejamos tão drásticos. Sem destruição total. Vamos imaginar um cenário de apocalipse onde a ideia é cortar gastos. Maximizar a eficiência. Potencializar a eficácia. Melhorar a sociedade. Um apocalipse da austeridade pragmático-social.


Imaginemos que, nesse cenário, pessoas e empregos sejam uma coisa só. Que eu e você, que um dia falamos sobre trabalhar com computadores, sejamos agora computadores também. Não dormimos, desligamos. Uma sociedade onde as conversas nunca acabam, e as demandas são infinitas. Onde tudo têm prazos, até os prazos. Esse apocalipse nosso vem para quebrar e ao mesmo tempo tornar mais sólida essa sociedade de pessoas-coisa.


Nesse apocalipse, não tem chuvas de gafanhotos nem granizo. Só a Mão Invisível que, do alto de sua sabedoria, decide acabar com aquelas pessoas-coisa que ela designa como inúteis. Afinal, ela tudo comanda e dita quem é híbrido do quê: além de gente-computador, somos também gente-bolsadevalores, gente-ações, gente-apps. “Mas o que é útil?” perguntam as pessoas, apreensivas. Ora, a utilidade muda com os desejos da Mão, e hoje, infelizmente, é dia de dizer adeus aos supervisores, aos advogados corporativos, aos consultores de consultas de consultorias. Corte de pessoal. Remanejamento de recursos para outros departamentos com demandas mais urgentes.


Mas afinal, o que é diferente nesse mundo apocalíptico onde gerentes não existem mais, onde advogados corporativos deixaram de ter valor para as corporações? Nesse mundo tem designer? Acontece alguma coisa ou nada muda?


Para compreender empregos que de fato existem, o antropólogo e ativista David Graeber apresentou o conceito de emprego de enrolação no seu texto Sobre o Fenômeno dos Empregos de Enrolação (numa tradução livre). Esses empregos não são ruins, necessariamente – alguns inclusive pagam muito bem – mas essencialmente existem sem razão para existir, e sua inexistência não modificaria a sociedade de forma muito significativa. Graeber fala desses empregos de enrolação como frutos de uma cultura global que cria cada vez mais cargos de gestão e gerência, e que faz isso não por que as organizações e empresas de fato precisam desses cargos fazendo o que eles fazem.


Por exemplo, alguém que trabalha na recepção de um escritório luxuoso onde telefones nunca tocam existe não para cumprir uma demanda urgente; afinal, os telefones nunca tocam. A pessoa está ali para indicar que seu patrão tem poder e dinheiro suficientes para que ela simplesmente fique ali, sentada 8 horas por dia à sua espera. E, Graeber afirma, as pessoas que trabalham nesses empregos inúteis sabem que o que elas fazem não muda muito na sociedade como um todo, nem na sua comunidade, ou mesmo na empresa na qual elas trabalham.


É uma existência que pode causar potentes crises existenciais em algumas pessoas, mesmo sem o nosso cenário de apocalipse burocrático no horizonte.


Mas onde se encaixa o design nessa lógica dos empregos que existem sem razão? A área foi criada, afinal de contas, para suprir demandas específicas da indústria, da produção em série. Existia a necessidade de um profissional qualificado para tocar os projetos industriais. Aí a indústria criou o criador de necessidades. Um tempo depois, o comércio e a publicidade abraçaram com mais carinho os programadores visuais, e criou-se (ou recriou-se) o diretor de arte. (Não é acidental, inclusive, o uso do masculino ao listar todos esses cargos: quando a “criatividade” se profissionaliza, o mercado tende a transformá-la na expertise dos homens. Ser chefe de cozinha é melhor do que ser cozinheira, não?)


O design, um dos filhos caçulas do capitalismo industrial, acompanhou as mudanças do sistema econômico que lhe criou. Não espanta, portanto, que a área tenha acompanhado também a burocratização e a gerencificação do mercado como um todo. Mas se seguimos a lógica de Graeber, uma aproximação demasiada com o burocrático indica uma maior inutilidade existencial. Então, podemos afirmar que o design é um desses campos que produz empregos de enrolação?


Graber faz questão de indicar no seu texto que os empregos de enrolação não são empregos ruins, na sua imensa maioria. Mas Graeber falava de uma perspectiva americana, inglesa, de classe média. O que acontece quando essa enrolação é também um emprego ruim, como muitas vezes acontece no caso do design? Como fica a autoestima de quem exerce essas profissões? Podemos não viver num mundo apocalíptico de ficção científica onde pessoas são metade máquina, mas não há dúvidas de que os nossos empregos dizem muito sobre o que nós somos. Na luta da economia da atenção, das notificações, dos grupos de WhatsApp e da EAD, parece que passamos cada vez mais tempo trabalhando, incapazes de nos desconectar daquilo que fazemos para pagar as contas.


Num cenário onde o designer muito frequentemente se enxerga como uma peça descartável num jogo sob o qual ele não tem controle (quem decide nas agências, nas empresas, nos estúdios não é o designer assalariado, muito menos o PJ frila-fixo), é urgente que tentemos entender como essa apatia, essa tristeza, nos afeta no nosso dia-a-dia. A melhor solução para combater as crises existenciais é que repensemos essas coisas em comunidade, que saiamos das nossas estações de trabalho individuais e tentemos entender pra quê que a gente tá fazendo tudo isso. Juntos. Se o nosso trabalho não contribui para fazer a sociedade melhor, então o que de fato contribuiria para isso? Como podemos fazer essas práticas tomarem forma dentro dos nossos empregos e, ainda mais crucialmente, fora deles? Uma das maneiras de escapar do apocalipse é encontrar sentido nas coisas de novo, e fazer isso com outras pessoas.

Texto disponível em formato podcast no desdesign.

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