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design, pesquisa + desigualdade

(Uma bloguificação deste fio do Twitter, publicado em abril de 2021. Este post inclui também imagens de uma apresentação feita no II Colóquio de Pesquisa e Design, realizado em novembro de 2020.)


Pensar muito na situação da CNPq genuinamente me dá náusea.


Eu não pretendo continuar minha pesquisa acadêmica em design por n motivos, mas me deixa assim, acabada de tristeza pensar na quantidade de cientistas bons e com métodos e ideias diferentes que a área de design especificamente perde com o sucateamento da educação pública. Em novembro passado, apresentei um pequeno recorte de uma pesquisa que espero poder continuar no pós pandemia, que trata sobre acesso à educação pública + as graduações em design.


"É uns rolê Paulo Freire, Maria?" É uns rolê Freire só que com muito ódio no coração. Quem passou ou passa por uma graduação em design sabe bem quais as barreiras que existem não somente ao tentar /entrar/ na graduação, mas principalmente pra permanecer. (Colegas classe média plus cujas famílias tão no design há gerações: essa conversa não é pra/com vocês, ok?)


Pela própria natureza da profissão*, existe uma certa... docilidade, ou maior abertura em design pra entender/perceber o status quo não como ferramenta de opressão, mas sim como... Escadaria que Eleva o estudante até o Mercado Perfeito, e isso se reproduz no ensino de design. (*natureza = nasceu da indústria, da divisão social do trabalho, etc. bebê capitalista desde sempre) Design adora ser Racional! Adora um universalismo que pode ser comercializado! Adora um culto tecnológico! E isso não bate com ensino crítico, nem com existências fora do padrão.



É importante entender quanto do ensino de design está ligado a ideia de um ensino técnico/focado na produção de trabalhadores para a indústria. Passa por Bauhaus isso, passa pela industrialização do continente pós Vargas/durante Juscelino. Monte de coisa. Mas importante lembrar. Misture ao projeto ufanista de Brasil Industrial uma pitada de Somos Uma Profissão Diferenciada e para Poucos, e pft. Design. O estudante que entra nessa ciranda vindo de condições precárias, entra cortando o caminho com os dentes. Raça, classe pesam nas costas.


Muitas vezes, o que o estudante de design vindo de situações precárias tem de fazer é, além de estudar normalmente, /ensinar os professores/ como lhe ensinar. Basicamente, dar um curso rápido sobre classe/raça/gênero pra uma audiência de doutores sem vontade de aprender.

Recomendo aos que se interessam por esse assunto (interesses mórbidos!) pesquisar sobre taxas de evasão nos bacharelados de design próximos a você. E aí recomendo pensar por que existem poucos dados sobre isso, e sobre recortes de raça e classe na profissão. O sucateamento do ensino público me preocupa exatamente por isso. A produção acadêmica em Design já é, pela natureza da profissão e seus mitos, incrivelmente tendenciosa a favor do mercado, e de atores que sabem que sua presença no mercado já é garantida (raça! classe! gênero!)


Quando você coloca mais barreiras no acesso a algo que já é praticamente fechado por cerca elétrica e guardado por meia dúzia de agentes armados, o que acontece é que você garante que as coisas irão permanecer Como Sempre Foram. Com os mesmos rostos, e ideias, infinitamente. Quem é designer, hoje? Um homem cisgênero branco, preferencialmente do sudeste, que tem dinheiro suficiente para cursos, produtos Apple, viagens. Que tipo de pesquisa científica é interessante para essa pessoa? Esse tipo de pesquisa deve continuar sendo o único que existe?


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